Seleção e tradução de Francisco Tavares
3 min de leitura
A UE não salvará Giorgia Meloni em relação à imigração
Publicado por
em 21 de Setembro de 2023 (original aqui)

Os imigrantes chegados de África estão a desestabilizar o governo italiano
Giorgia Meloni enfrenta a sua maior crise. Durante a semana passada, a pequena ilha italiana de Lampedusa, localizada mais perto da Tunísia do que do continente italiano (e, de facto, da Sicília), foi inundada por mais de 10.000 migrantes — significativamente mais do que os 7.000 habitantes da ilha. Desde janeiro, mais de 130.000 pessoas chegaram às costas do país a partir do Norte de África, o dobro do número do mesmo período do ano passado.
Meloni – cujo sucesso eleitoral se baseou, em grande medida, na promessa de ser dura com a imigração – está sob crescente pressão para fazer algo a respeito do problema. Ela prometeu esta semana que a Europa não pode tratar o seu país como um “campo de refugiados”, mas, como todos os primeiros-ministros italianos da última década, Meloni também apelou à ajuda da UE.
A Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, viajou para Lampedusa no domingo e apresentou um plano vago para ajudar a Itália a enfrentar a crise dos migrantes. Mas Meloni deveria saber tão bem como qualquer um que nenhuma ajuda concreta virá de Bruxelas. Ao longo dos anos, todas as tentativas de encontrar uma solução à escala da UE para o problema dos migrantes em Itália falharam, e não há razão para acreditar que desta vez será diferente.
Com efeito, no dia seguinte à visita de von der Leyen a Lampedusa, o ministro do interior francês, Gérald Darmanin, disse ao seu homólogo em Roma que a França não acolheria nenhum migrante que chegasse a Lampedusa. “Seria um erro de julgamento dizer que os migrantes deveriam ser redistribuídos pela Europa e pela França”, disse ele. A França até reforçou a segurança ao longo de sua fronteira com a Itália.
Já deveria estar claro, após a década de quase permanente crise da Europa, que esta falta de solidariedade entre os Estados-membros é uma característica, não um bug, da UE. A insistência de Meloni numa “solução europeia” que é impossível por definição parece, portanto, ser mais um testemunho da sua impotência política. Isto é especialmente verdadeiro quando se considera que grande parte da responsabilidade pelo recente aumento das chegadas de migrantes recai sobre a própria UE.
Em segundo plano está um acordo de 255 milhões de euros assinado entre a UE e a Tunísia em julho para ajudar a conter a migração ilegal, principalmente para a Itália, da nação africana, que se tornou uma das rotas mais populares para os traficantes de pessoas. A iniciativa foi liderada pela Comissão Europeia e por Meloni. No entanto, desde a sua assinatura, o número de pessoas que passam da Tunísia para a Itália aumentou quase 70%. Fundamentalmente, nenhum dos fundos prometidos foi desembolsado para a Tunísia.
Foi recentemente revelado que vários Estados-Membros, liderados pelo chefe dos Negócios Estrangeiros da UE, Josep Borrell, têm trabalhado nos bastidores para sabotar o acordo. Numa carta à Comissão de 7 de setembro, Borrell escreveu que “em Julho, vários estados-membros expressaram a sua incompreensão em relação à ação unilateral da Comissão sobre a conclusão deste [memorando de entendimento] e as suas preocupações sobre alguns dos seus conteúdos.”
Estas preocupações referiam-se oficialmente ao fraco historial de Direitos Humanos do governo tunisino. No entanto, há razões para acreditar que o acordo era inaceitável aos olhos de alguns governos e representantes da UE que se opunham ideologicamente a Meloni porque a Comissão negociou o Acordo diretamente com o governo italiano de “extrema-direita”, em benefício deste último. Daí a decisão de quebrar o processo.
Neste sentido, poderíamos dizer que há alguns actores na UE que estão a utilizar a rota tunisina como uma “arma de migração em massa” para desestabilizar a Itália e pressionar o governo Meloni. Não existe uma solução fácil e a curto prazo para o problema dos migrantes em Itália, mas qualquer solução terá necessariamente de ser unilateral. Meloni provavelmente entende isso — o problema é que ela também sabe que precisa permanecer nas boas graças da UE para permanecer no poder. Enquanto isso, sob o peso de tais contradições, a Itália continua a fraturar-se.
_____________
O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e o seu último livro, em co-autoria com Bill Mitchell, é Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017).


